Em nossa vida psíquica, como nos mostrou Freud, o pai ocupa posição de destaque ao lado da mãe. Em termos técnicos falamos em função paterna e função materna (ou como preferia um professor: função normativa e função desejante, respectivamente). Se pudéssemos, para ilustrar somente, organizar em uma narrativa linear a natureza e influência dessas funções seria mais ou menos a seguinte: ao nascer em desamparo o filhote humano primeiro estabeleceria relações com o corpo materno num intensa troca pulsional que o faria praticamente indiferenciado dessa mãe em termos psíquicos. Para completar seu desenvolvimento e estabelecer a separação entre mãe e bebê é que agiria o pai, impedindo ou barrando o acesso do bebê à mãe. Porém, muito cedo ainda na história da psicanálise, notou-se que as coisas não são tão simples. O pai não é tão certo quanto a mãe. Sabe-se com certeza a qual mãe um bebê pertence, mas e quanto ao pai? No fundo, no fundo a paternidade é uma hipótese, por vezes bastante confiável, mas sempre uma hipótese. Isso acresce à função paterna outra propriedade: a paternidade seria uma vinculação essencialmente simbólica, que envolve toda uma codificação social ampla, ligada às redes de relações comunitárias e seus sistemas de parentesco. Um exemplo disso é o sobrenome paterno que vincula as gerações. No entanto, e isso pode ser bastante curioso e esclarecedor, é por indicação da figura materna que o pai se constitui enquanto tal. No limite não adiantaria nada se autodenominar pai se a mãe não o fizer. E caso a mãe faça essa indicação não há cristão que a possa negar. A mãe é que vai dizer quem é o pai.
Mas e o pai ausente? O famoso, o tão estatisticamente relevante “pai ausente”? Para termos ideia daquilo que pode ser captado em números, cerca de 172.200 crianças nascidas no Brasil foram registradas sem o nome do pai na certidão de nascimento em 2023 segundo a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), sendo 6,7% dos nascimentos, número 5% maior do que no ano anterior. Esses números, no entanto, se trazem uma parte relevante da verdade, podem ocultar outros lados do problema: quantos seriam os pais ausentes que moram junto com os filhos? Acho que não erraríamos ao deduzir que estaríamos falando de quantidades bastante relevantes.
Isso tem relevantes implicações de muitas ordens, de questões como a sobrecarga de trabalho das mulheres e mães, passando por questões econômicas de transferência de renda, até psíquicas como de senso de pertencimento, de proteção, de rejeição e abandono para todo um contingente populacional.
Há uma fala de Lacan em um de seus seminários que faz um apontamento no mínimo curioso. Ele se pergunta sobre o problema da ausência paterna e conclui que o pai ausente é um pai que se ausenta pois não está disposto a sustentar a própria falta para os filhos. Entendo isso da seguinte forma: por que estar presente e encarar meus próprios limites no exercício da paternidade se posso desaparecer da frente dos meus filhos e me eternizar como o pai ideal, aquele que seria perfeito, infalível, rico e amoroso? Aquele que se estivesse ali salvaria a todos, ou que voltará triunfante solucionando tudo?
É uma pena realmente que não possamos viver em nossa imaginação de forma satisfatória.

