Começos e limiares

A primeira sessão de uma análise é muito importante. Quase tudo que acontecerá depois, durante o processo, de alguma forma, parece já se apresentar naquele primeiro momento. É um limiar, como atravessar um portal, como transitar entre o sonho e a consciência desperta, aqueles instantes em que não se é mais o que se foi e nem ainda se é o que será. Mas não é para esse instante em si que volto minha reflexão, já que isso — o presente — é, de fato, onde nos encontramos de qualquer maneira: é, antes, a certa consciência, o certo conhecimento de que se está ali. É a característica das fronteiras: um lugar de instabilidade, de vacilação ou de ousadas precipitações, onde, de repente, nos reencontramos conosco, como com um velho conhecido que habita eternamente esse estreito corredor que percorre tantos momentos de nossas vidas.

A questão é que nada começa de fato. Sempre antes veio outra coisa (“E sempre uma coisa depois da outra”, dizia o poeta), mesmo que não nos recordemos com precisão, mesmo que gostemos ou precisamos construir um momento inaugural que fatie o tempo, estabelecendo um marco. Sempre houve algo antes, que ecoa além e serve de suporte para essa flutuação no instante presente. É a isso que se refere a costumeira pergunta dos analistas, ao receber quem lhe demanda ouvidos: “O que te trouxe aqui?”

O exercício de construir uma resposta possível para essa pergunta (nada inocente) é crucial para uma possível emergência do sujeito. O sujeito, aqui, não é o mesmo daquele que aparece na expressão “um sujeito qualquer”. Esse sujeito, que essa pergunta convoca, é diferente também do indivíduo, do “eu” da pessoa. O sujeito aglomera também aquilo que o eu não admite em si e que, no entanto, também é. Como em um texto que emana não apenas um sentido, mas várias camadas de sentido possíveis a partir do mesmo conjunto de palavras, como um texto que produz sentidos não apenas naquilo que revela, mas também naquilo que se oculta ou que exclui. Todas essas nuances, nas quais aquilo que chamamos de eu se inclui, estão para além do eu e escancaram a divisão subjetiva sob a qual é possível praticar uma coisa como a psicanálise.

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